29 de Setembro de 2019 - 26º Domingo do Tempo Comum

A hora da verdade

O Evangelho de hoje é uma história imaginada que Jesus contou aos seus ouvintes, para corrigir os seus modos errados de pensar e de viver. Os fariseus pensavam que nesta vida cada um tem a sorte que merece: os justos têm abundância e bem-estar; os pecadores, miséria e sofrimento. Foi este modo de ver, injusto e infundado, que tinha como efeito levar os ricos a desprezar os pobres, e os que tinham saúde e vigor a desprezar os débeis e os doentes, que Jesus pretendeu, de uma vez por todas, corrigir e desfazer. Quantas pessoas boas sofrem sem culpa nenhuma! E quantas são elogiadas ou premiadas sem o merecerem! Mas há um momento, ensina Jesus, em que tudo se clarifica, e chega para todos a hora da verdade. Enquanto vivemos, a nossa vida é um tempo aberto à aceitação ou à rejeição da graça de Deus.


Jesus com os fariseus - Friederich August Ludy (1823 -1890)

São-nos dadas inúmeras oportunidades de conversão e santificação. Ninguém se pode queixar de não ter tido tempo para melhorar. Mas, com o termo da vida, esse tempo também termina. E então, diante de Deus, a vida de cada um será avaliada em função das suas obras e da sua fé.

Num pensamento muito belo, escreveu S. João da Cruz: "No entardecer da nossa vida, seremos julgados sobre o amor". E esse «entardecer da vida», essa hora da verdade chegou um dia para os protagonistas desta história que Jesus contou: um homem rico, de que não sabemos o nome, e um pobre, chamado Lázaro, que "desejava saciar-se com as migalhas que caiam da mesa do rico", mas nem isso conseguia. Ambos morreram e, depois da morte de ambos, entra em cena também Abraão, que representa todos os justos que aguardavam a ressurreição. E nessa altura, ao lado de Abraão, vemos já o próprio Lázaro, que não está ali só por ser pobre, mas também, certamente, por ser bom e piedoso.

Ao mesmo tempo, num outro lugar da "na mansão dos mortos", (o hades, em grego, o xeol em hebraico), vemos o homem rico, que, numa encenação pedagógica imaginada por Jesus, tenta entrar em diálogo com Abraão. Mas é um diálogo triste, porque todos os pedidos que faz, todas as hipóteses de solução que imagina, têm um ponto em comum: vêm tarde de mais.

Mas qual foi o pecado tão grave deste homem rico, que lhe causou a condenação eterna da separação de Deus e dos outros? Foi a sua total indiferença em relação a esse "pobre, chamado Lázaro", que "jazia junto do seu portão coberto de chagas". Vivendo comodamente e na abundância, como aqueles homens do Antigo Testamento de que falava o profeta Amós, na 1ª leitura, nunca reparou nele. Aquilo que o condenou não foi ser rico, foi ter fechado o coração. É um perigo terrível: fechar o coração ao outro que está junto de nós, que precisa de nós.

Este perigo pode ameaçar-nos a todos, e queremos firmemente evitá-lo. E não é difícil, porque todos podemos partilhar os nossos bens e as nossas capacidades. Todos temos um serviço a realizar, uma missão a cumprir, que nos foi confiada por Deus! Hoje, cada um de nós deve perguntar: Qual é a minha missão? Qual é o serviço que Deus me pede? Tenho o coração fechado? Se alguém precisar da minha ajuda, estou pronto a ajudar?

Em Setembro de 2010, no final da Vigília de oração pela beatificação do Cardeal Newman, (que em breve será canonizado), Bento XVI quis dizer uma palavra especial aos numerosos jovens presentes: "Queridos jovens amigos: somente Jesus conhece qual o «serviço específico» que tem em mente para vós. Estai abertos à sua voz, que ressoa no profundo do vosso coração: também agora o coração d'Ele fala ao vosso coração".

" O coração fala ao coração"("cor ad cor loquitur"): era este o lema do Cardeal Newman, que, como explicou Bento XVI, "nos dá a perspectiva da sua compreensão da vida cristã como uma chamamento à santidade, experimentada como o desejo profundo do coração humano de entrar em comunhão íntima com o Coração de Deus". Mas não são apenas os jovens que têm uma missão:

"Cristo precisa de famílias que lembrem ao mundo a dignidade humana e a beleza da vida familiar". E precisa de muitas outras pessoas: "Precisa de homens e mulheres que dediquem suas vidas à nobre tarefa da educação, cuidando dos jovens e formando-os de acordo com os caminhos do Evangelho." Precisa também de consagrados: "Ele precisa de muitos que consagrem a sua vida à busca da caridade perfeita, seguindo-o na castidade, pobreza e obediência, e servindo-O no mais pequeno dos nossos irmãos e irmãs. Ele precisa de amor poderoso dos religiosos contemplatlvos que sustentam o testemunho e a actividade da Igreja por meio da oração constante" .

"E precisa de sacerdotes, bons e santos sacerdotes, homens dispostos a dar a vida por seu rebanho". E quando alguém ainda não sabe bem o que Deus lhe pede, é preciso perguntar, pedir: "Perguntai ao Senhor o que deseja para vós! Pedi-Lhe generosidade para dizer sim! Não tenhais medo de vos dar totalmente a Jesus. Ele vos dará a graça necessária para acolher o seu chamamento".

S. Paulo dizia a Timóteo, na 2ª leitura: "Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado". Não somos chamados a uma vida cómoda e egoísta, mas a um trabalho intenso, e a um combate vigoroso, para que um dia Deus nos receba junto de Si, na vida eterna. É este "bom combate", que evitará muitos outros que trazem a morte, que queremos continuar a combater, para glória de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor. "A Ele a honra e o poder eterno. Amen".

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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