6 de Outubro de 2019 - 27º Domingo do Tempo Comum

Aumenta a nossa fé

Houve um dia em que os Apóstolos pediram a Jesus: "Aumenta a nossa fé". Queriam confiar em Jesus cada vez mais, abraçar todos os seus ensinamentos, e segui-Lo sem reservas. E o mesmo pedido fazemos nós hoje: "Aumenta a nossa fé", Jesus, para que aceitemos sem reservas tudo o que nos ensinas, e cumpramos sempre com alegria a Tua vontade.

A fé é uma atitude totalmente de acordo com a dignidade do homem. Algumas pessoas julgam que se rebaixam, quando acreditam em Deus, mas, se pensarem bem, perceberão que é uma honra para a liberdade e para a inteligência do homem "confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas" (Catecismo da Igreja Católica, n.154).


B. E. Murillo, Santo Agostinho lavando os pés a Cristo (1650-1655)

Mas Deus está tão acima do homem, e as verdades que Deus nos revela são tão elevadas, e ultrapassam muitas vezes a nossa capacidade de compreensão... Como é que 'conseguimos' ter fé? Não será um desafio demasiado exigente para as nossas capacidades? Na verdade, a Igreja ensina que "o acto de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo" (Catecismo da Igreja Católica, n.154).

Para que sejamos capazes de dizer: «Eu creio», precisamos de que a graça de Deus nos ajude. Precisamos dos auxmos interiores do Espírito Santo, que move o nosso coração e o converte para Deus, e ao mesmo tempo abre os olhos do nosso entendimento, dando-nos essa suavidade, essa facilidade em aceitar e aderir à verdade (Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum, n. 5).

Quando o Espírito Santo nos toca, é tão fácil acreditar! S. Tomás de Aquino explica muito bem este dinamismo da fé: "Crer é um acto da inteligência, que presta o seu assentimento à verdade divina, por determinação da vontade, movida pela graça de Deus" (Summa Theologiae 11-11. q. 2. a. 9). Ou seja, o primeiro passo é a conversão do coração: a graça de Deus converte-nos, nessa altura passamos a querer o que Deus quer, a amar o que Deus ama, e então a nossa inteligência eleva-se acima de si própria, e adere ao mistério de Deus, que nos ultrapassa infinitamente, mas que desde então passa a encher de luz e fascínio todo o nosso ser. Pela fé, olhamos para Jesus Cristo, e reconhecemos o fascínio da sua Pessoa, a verdade das suas palavras, o poder dos seus milagres e a força da sua morte e ressurreição.

Aonde nos leva a fé? Depois do pedido que os Apóstolos Lhe fizeram, Jesus disse-lhes: "«Se tivésseis fé comparável a um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: 'arranca-te e vai plantar-te no mar', e ela havia de obedecer-vos»". Que significa isto, na prática, para cada um de nós? Significa, em primeiro lugar, que, por amor e fidelidade a Jesus, podemos lutar por ser melhores, podemos lutar por sermos santos. A fé leva-nos a querer agradar a Jesus, e, portanto, a desejar não O ofender, a desejar vivamente não O desgostar em nada. É isso que fazem as pessoas que se amam! Em segundo lugar, a fé leva-nos a ter uma enorme ambição de levar Jesus aos que não O conhecem ainda ou se esqueceram d'Ele. Pela fé, anima-nos o desejo de que muitas outras pessoas - gostaríamos que fossem todas - se encontram com Jesus.

Na 2ª leitura, S. Paulo, que está na prisão, desafia Timóteo a continuar a anunciar Jesus, sem ter medo de nada: «Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus». E já antes tinha dito: «Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação». É preciso que também o nosso testemunho não seja tímido, mas corajoso, e saiba aproveitar todas as oportunidades para ajudar os outros a aproximar-se de Deus.

Finalmente, a fé leva-nos a querer conhecer e a entender cada vez melhor toda a riqueza das verdades reveladas por Deus, a que damos o nome de «mistérios da fé». «A fé procura compreender», escreveu Santo Anselmo. Por isso, «é inerente à fé o desejo por parte do crente de conhecer melhor Aquele em quem acreditou, e de compreender melhor o que Ele revelou» (Catecismo da Igreja Católica, n. 158). De uma forma muito expressiva, Santo Agostinho dizia: "Compreende, para acreditares; acredita, para compreenderes" ("Intellige ut credas: crede, ut intelligas"). Isto aplica-se em particular à catequese que damos ou aos ensinamentos que fazemos, como explica depois o próprio Santo Agostinho: "Compreende a minha palavra, para que possas acreditar; e acredita na Palavra de Deus, para que possas compreendê-la" (Sermão 43,9).

Aos jovens, escreveu um dia Bento XVI: "Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho. Acolhei com gratidão este dom espiritual que recebestes das vossas famílias e comprometei-vos a responder com responsabilidade à chamada de Deus, tornando-vos adultos na fé. Não acrediteis em quantos vos dizem que não tendes necessidade dos outros para construir a vossa vida! Ao contrário, apoiai-vos na fé dos vossos familiares, na fé da Igreja, e agradecei ao Senhor por a ter recebido e feito vossa!

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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