8 de Dezembro de 2019 - Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

A obra prima do poder criador de Deus

A 1ª leitura falava-nos do primeiro pecado da história. Foi o primeiro, mas arrastou depois de si muitos outros, isto é, desencadeou uma história de pecado, para a qual depois todos nós, infelizmente, contribuímos e continuamos a contribuir.

A história da humanidade é uma história de males e de pecados em cadeia. Uns arrastam outros. "Nesse sentido, todos somos Adão (...): não somos apenas vítimas do pecado dos outros, mas também os outros são vítimas do nosso pecado".

Como é que Deus reage aos pecados dos homens? Oferecendo-nos o seu Filho feito homem, que aceitou morrer na Cruz por todos os homens.

E que ganhou Jesus, Filho de Deus, com os seus sofrimentos e a sua morte na cruz?

Jesus aceitou morrer sob o peso dos pecados dos homens e, por esta aceitação da sua paixão e morte, obteve um mérito infinito, superabundante.


Imaculada Conceição, Bartolomé Esteban Perez Murillo (1617-1682)

Ao submeter-se à Paixão e ao aceitar a morte, Jesus mereceu, antes de mais, a sua ressurreição, a glorificação do seu próprio Corpo, e além disso, pela superabundância do seu mérito, mereceu partilhar essa glorificação com quem Ele quisesse, e mesmo com todos os homens, se assim o quisesse.

Deus salva os homens pela força dos méritos infinitos de Cristo, mas houve uma pessoa que Deus salvou ainda antes de eles serem obtidos: foi a Virgem Santa Maria, escolhida desde toda a eternidade para a ser a Mãe de Jesus, e que foi salva na previsão desses méritos, como ensinou solenemente o Papa Beato Pio IX, ao promulgar em 8 de Dezembro de 1858, o Dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora.

Mas não foi salva como nós o somos, foi salva de um modo ainda mais perfeito. Em atenção aos méritos futuros da morte de Cristo, Salvador do género humano, Maria foi redimida de modo mais sublime do que os restantes seres humanos. Deus antecipou em Maria a aplicação dos méritos da Morte redentora do seu Filho, e fê-lo de uma forma plena e superabundante, preservando-a de toda a mancha, isto é, não permitindo que essa torrente de mal, que é constituída pelo pecado original e por todos os pecados que se lhe juntaram ao longo dos tempos, a tocasse ou a manchasse, por mais levemente que fosse, desde a sua concepção, desde o primeiro instante da sua existência como pessoa.

Por isso, entre os Santos Padres e os autores espirituais dos primeiros séculos, tornou-se habitual designar a Mãe de Deus como toda santa e imune de toda a mancha de pecado, e como que plasmada pelo Espírito Santo, e feita uma nova criatura. Desde o primeiro instante da sua existência, a Virgem de Nazaré foi enriquecida com os esplendores de uma santidade inteiramente singular, e por este motivo é que o Anjo, ao saudá-la, lhe disse estas palavras também inteiramente singulares: "«Ave, cheia de graça...»" (Lc 1,26).

Esta é a única vez que estas palavras aparecem na Sagrada Escritura. Nunca foram ditas a mais ninguém, nem jamais o poderão ser. Foi como se o anjo lhe dissesse: 'Alegra-te, Maria, cheia de graça, agraciada, a mais favorecida por Deus'. E depois acrescenta: "«0 Senhor está contigo»". E mais adiante: "«Encontraste graça diante de Deus»". Isto é, o Senhor te predestinou, te uniu definitivamente aos seus desígnios, e por isso te cumulou com os seus dons, que, segundo recorda S. Paulo, são irrevogáveis, (Rom 11,29), e procedem de uma gratuita concessão de Deus, que nos escolheu "antes da criação do mundo", como diz também S. Paulo, na 2ª leitura.

A Virgem Maria, pensada por Deus desde toda a eternidade, predestinada para ser a Mãe do seu Filho, recebeu do próprio Verbo criador a pureza original com a qual viria a acolher, pelos méritos redentores de Cristo, a Palavra feita carne que veio habitar entre nós. A Imaculada, a cheia de graça é a obra prima, do poder criador de Deus e da sua infinita misericórdia.

No dia 8 de Dezembro de 1854, esteve uma manhã cinzenta e chuvosa, mas quando, na Basílica de S. Pedro, o Beato Pio IX terminou a leitura da Bula Ineffabilis Deus, em que declarou solenemente que esta verdade está contida na revelação e deve ser firmemente professada por todos os fiéis, o sol começou a brilhar, e um raio de luz veio incidir directamente no rosto do Papa, que estava muito emocionado. Muitas pessoas viram e ficaram impressionadas. Mas é normal que o sol tenha brilhado nessa hora...

O mistério de Cristo brilha de facto com uma luz esplendorosa na Imaculada Concepção da Virgem Maria e essa luz toca­nos também a nós e ilumina-nos intimamente. Que a Virgem Maria, Nossa Senhora, cheia de graça, sumamente luminosa e pura, nos ilumine a nós também com a luz do seu Filho, nos ajude a caminhar, nos levante das quedas, e interceda por nós, para que nos unamos sempre mais a Jesus, e por Ele nos deixemos conduzir, purificar e salvar. Amen.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Blog  Ad te levavi
Arquivo