26 de Abril de 2020 - Domingo II depois da Páscoa

Caridade em tempo de pandemia
(e pós-pandemia)

O episódio dos discípulos de Emaús, que se lê no evangelho de S. Lucas (capítulo 24, versículos 13 a 35), mostra-nos dois homens que caminhavam cegos, em sentido espiritual, como muitas vezes os seres humanos podem andar, isto é, fechados à luz de Deus, e por isso incapazes de perceber o sentido da vida e dos seus acontecimentos, bons ou maus.


A Ceia de Emaús, Diego Velazquez, MOMA, NY

Os dois caminhantes estavam amargurados com a recente morte de Jesus, e tinham deixado nascer a dúvida e o desânimo nos seus corações. Por isso voltavam, cheios de tristeza, à sua pequena aldeia natal, Emaús.

E quando, a certa altura, um caminhante desconhecido – que não era outro senão o próprio Jesus – começou a caminhar ao lado deles, foram capazes de Lhe contar com sincera emoção tudo o que tinha acontecido em Jerusalém nos últimos dias. Mas, mesmo depois, continuaram cegos, “os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem”.

Tudo começou a mudar, quando o próprio Jesus, depois de os repreender pela sua lentidão de espírito, lhes foi explicando, “em todas as Escrituras, o que Lhe dizia respeito”. Nessa altura, o íntimo daqueles homens deixou de estar gelado e triste. Parecia que um novo fogo – um novo entusiasmo – tinha começado a arder nos seus corações. Já percebiam tudo melhor. Já tudo fazia mais sentido. Mas nem mesmo assim reconheceram Jesus.

Pouco depois, porém, quando já iam caindo sobre a terra as sombras da noite, convidaram aquele desconhecido para ficar com eles e partilhar com eles a refeição. E foi então que os seus olhos se abriram. S. Lucas salienta mesmo que não se limitaram a convidá-lo, mas tiveram de insistir, pedindo-Lhe que ficasse, porque Ele mesmo “fez menção de ir para diante”.

Comentando este gesto dos dois discípulos, o Papa S. Gregório Magno, numa homilia pronunciada sobre este texto, na Basílica de S. Pedro, em 17 de Abril de 591, num tempo em que a Itália romana se encontrava em ruínas e a economia praticamente paralisada, devido aos ataques dos povos lombardos, que já controlavam praticamente toda a península itálica, faz esta sugestiva observação: “Deste exemplo podemos concluir que não basta convidar os peregrinos a entrar em nossa casa, mas que é preciso persuadi-los e trazê-los connosco”.

Foi, portanto, a sua hospitalidade para com um estranho, por mais íntimo e familiar que já tivesse passado a ser para eles, que definitivamente os preparou para o reconhecimento de Jesus ressuscitado.

Comenta S. Gregório: “Era preciso pô-los à prova, para ver se aqueles que não O amavam ainda como Deus, eram capazes ao menos de O amar como um estranho”. E continua: “Aqueles que tinham a Verdade como companheira de viagem, não podiam estar longe da caridade... Como a um peregrino, ofereceram-Lhe hospitalidade. Prepararam a mesa, serviram os alimentos e reconheceram, pelo modo de partir o pão, o Deus que não tinham reconhecido pela explicação da Sagrada Escritura”.

Na verdade, foi “ao partir o pão” que O reconheceram. Foi esse gesto inconfundível de Jesus que lhe abriu os olhos. E, nessa altura, já não podiam desistir. Voltar atrás, nunca mais! Decidiram então continuar a partilhar a sua vida com os outros discípulos do Senhor. Regressaram a Jerusalém, “e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão”.

Os dois discípulos sentiam-se absolvidos da sua infidelidade, da sua falta de confiança, do seu desânimo. Mas o próprio S. Pedro, a quem Jesus aparecera pessoalmente, tinha sido absolvido das suas negações, e doravante poderia confirmar os seus irmãos, como Jesus lhe tinha anunciado (Lucas 21, 31-34).

S. Gregório Magno faz este interessante comentário: “Ouvindo os preceitos de Deus não foram iluminados: mas cumprindo-os, conheceram a luz. Porque está escrito: «Não são aqueles que entendem a lei, que são justos aos olhos de Deus, mas aqueles que a praticam» (Romanos 2, 13). Todo aquele, pois, que quiser ter a inteligência do que entendeu, deve prontamente realizá-lo. Assim, o Senhor não Se fez reconhecer enquanto falava, mas dignou-se dar-Se a conhecer, quando O serviam” (Homilia 23).

É de notar ainda que, logo depois da sua eleição (no ano 590), S. Gregório redireccionou os recursos da Igreja para conseguir realizar as acções de ajuda aos mais pobres. E passou a exigir severamente que os seus clérigos fossem atrás de pessoas que precisavam de ajuda, e repreendia-os quando percebia que não estavam a fazê-lo.
O relato da aparição aos discípulos de Emaús, que é um texto de grande beleza, admiravelmente escrito por S. Lucas, ensina-nos, portanto, que não só a fé leva à caridade, mas também a caridade conduz à fé.
E ensina-nos ainda que a caridade, na sua expressão mais básica, consiste em partilhar: antes de mais, o pão, ou os bens materiais, mas igualmente os bens espirituais, como a esperança, a fé ou a alegria, com quem estiver mais necessitado, tanto de uns como dos outros.

Neste tempo de pandemia, e na longa e penosa caminhada de recuperação que esperamos em breve possa ter início, todo o católico, depois de assegurar as necessidades de sua família, deve considerar como poderá aumentar os seus actos de misericórdia pelos pobres, neste momento de desespero para tantos. Isso pode significar o aumento de doações financeiras, ou o voluntariado por mais tempo num “serviço essencial” de caridade, ou simplesmente passar mais tempo contactando e mantendo-se ligado com os mais necessitados.

O relato de S. Lucas ensina-nos ainda a não nos isolarmos, a não nos fecharmos em nós mesmos, mas a procurarmos sempre a comunhão dos que professam connosco a mesma fé.

E agora que, como ansiosamente esperamos, vai voltar a ser possível celebrar a Missa com a presença dos fiéis, depois de, durante tanto tempo ter sido celebrada em templos quase vazios, vamos voltar com muita alegria às nossas igrejas, (respeitando evidentemente a distância física requerida). Em cada uma das igrejas onde nos reunimos, é o próprio Jesus ressuscitado que nos acolhe, nos convida a recebê-Lo no Sacramento Santíssimo do seu Corpo e Sangue, e nos envia para servirmos os outros com verdadeiro amor e caridade.

Com a amizade em Cristo do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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