5 de Setembro de 2010 - Domingo XXIII do Tempo Comum

O peso da cruz, o peso do amor

No Evangelho de hoje, Jesus diz-nos: "Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não pode ser meu discípulo". Temos de reconhecer que quem leva a cruz, tem um grande peso sobre os ombros, mas, no caso dos que seguem Jesus, não é um peso qualquer, é o peso do amor.

Santo Agostinho escreveu na sua obra mais famosa: "O meu peso é o meu amor" ("Pondus meum amor meus") (Confissões 13, 9, 10). Agostinho entende "peso" como o impulso que o conduz, a força que o impele, e que é o amor a Deus, o amor pela verdade.

Mas também podemos dizer que o amor pesa, porque não é egoísta, e nos leva a pensar nos outros. Sentimos o peso do amor, porque sentimos uma grande responsabilidade pelo bem e pela salvação daqueles a quem amamos: os pais pelos filhos, os esposos um pelo outro, os amigos verdadeiros pelos seus amigos, as religiosas por todas as pessoas que pedem a sua oração, o Papa e os Bispos pela Igreja, e os sacerdotes pelos seus irmãos e por todos os homens.

Quem é egoísta, quem só pensa em si e se serve dos outros como se fossem objectos, não aceita nenhum peso, deita-o para trás das costas, vive numa aparente "descontracção", mas vive vazio, porque não tem amor por ninguém.

Jesus sentiu o peso da sua cruz, que era o peso do seu amor redentor por toda a humanidade, e, apesar de ter caído várias vezes, como recordamos na Via-sacra, levantou-Se e continuou a caminhar, porque o seu amor O impelia a aceitar a morte e a dar a vida por todos.

Se não sentimos o peso da cruz, é porque não estamos a amar, ou estamos a amar muito pouco.

Este amor não se aprende na escola nem no mundo, aprende-se na família - se os pais o viverem também - e na Igreja, onde, ao longo da vida inteira, aprendemos a ser cristãos.

Actualmente, sente-se uma grande rejeição da cruz de Cristo, porque se valoriza até ao extremo o individualismo e o egoísmo. A cruz incomoda, porque desafia a entregar a vida, como fez Jesus.

E talvez até nós próprios cristãos, nos possamos por vezes sentir tentados a rejeitá-la, não por falta de fé, mas simplesmente porque a vida é complicada, e não nos apetece "complicá-la" ainda mais.

Na 1ª leitura, do livro da Sabedoria, lemos que "o corpo corruptível deprime a alma", e aqui não estamos diante de nenhuma indevida interferência de Platão, ou de outras concepções dualistas, na Sagrada Escritura, como se o corpo fosse mau e a alma é que fosse boa, mas temos simplesmente a verificação de que as preocupações da vida, os afazeres, as contrariedades por vezes nos absorvem, e não nos deixam ter o espírito tão liberto como desejaríamos.

O grande problema da vida humana, porém, não são as preocupações, como aquelas que se referem ao trabalho, (ou à falta dele), à família, à saúde ou à doença. Todas estas realidades podem sempre unir-nos mais a Deus, e todas elas são "santificáveis", desde que as queiramos santificar ou nos queiramos santificar através delas.

O grande problema é a incapacidade de amar, a incapacidade que muitos têm de se darem a si mesmos, e daí o desprezo da cruz, a rejeição da cruz, senão mesmo, por vezes, o ódio à cruz.

Esta incapacidade só se supera aprendendo a amar, e ensinando a amar, para que o amor seja o "peso" que nos impele, no sentido de Santo Agostinho.

É preciso ajudar as crianças e os jovens a não serem egoístas, nem consumistas, nem caprichosos.

E sobretudo é preciso ajudar os mais novos a pôr Deus em primeiro lugar, a dar nas suas vidas a Jesus o primeiro lugar.

Antes dos pais? Sim. Antes dos amigos? Também. Antes dos jogos e do computador? Claro. Antes do namorado ou da namorada? Lógico.

E todos somos convidados a amar a Deus mais e primeiro, como claramente nos ensina hoje Jesus no Evangelho: mais do que aos pais, mais do que os filhos, mais do que a esposa, mais do que o marido, mais do que a tudo, senão fica tudo fora do lugar, e nada "encaixa", nada faz sentido.

Depois de levar a cruz, Jesus estendeu os braços e deixou-Se pregar na cruz por nós, para nos dar a sua vida. Mas os seus braços abertos manifestam a intensidade da sua oração, e ao mesmo tempo abraçam o mundo, como disse um dia Bento XVI: "Os braços abertos do Crucificado são, afinal, também um gesto de abraço, com o qual Ele nos atrai para si, deseja conter-nos nas mãos do seu amor. Assim, Ele é uma imagem do Deus vivo, é o próprio Deus, a Ele podemos confiar-nos" (Homilia em 8 de Setembro de 2007).

Jesus ressuscitado continua a quer partilhar connosco todo o peso do seu amor, que não nos deixa ficar presos no egoísmo, mas nos torna capazes de amar de verdade e de transformar todos os momentos da nossa vida, "num acto de amor a Deus e aos homens", como fez o próprio Jesus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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